{"id":390,"date":"2010-07-14T00:56:15","date_gmt":"2010-07-14T00:56:15","guid":{"rendered":"http:\/\/urbanriders.com.br\/alvaro.perazzoli\/?p=390"},"modified":"2010-07-15T17:41:05","modified_gmt":"2010-07-15T17:41:05","slug":"a-senhora-gentil-horrivelmente-colorida","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.urbanriders.com.br\/alvaro.perazzoli\/?p=390","title":{"rendered":"A senhora gentil horrivelmente colorida"},"content":{"rendered":"<p style=\"text-align: left;\"><em><strong>Por:<\/strong> <a href=\"http:\/\/urbanriders.com.br\/alvaro.perazzoli\/?page_id=20\" target=\"_blank\">\u00c1lvaro Perazzoli<\/a><\/em><\/p>\n<p><a rel=\"attachment wp-att-391\" href=\"http:\/\/urbanriders.com.br\/alvaro.perazzoli\/?attachment_id=391\" target=\"_blank\"><img decoding=\"async\" loading=\"lazy\" class=\"alignleft size-full wp-image-391\" title=\"Senhora Colorida\" src=\"http:\/\/urbanriders.com.br\/alvaro.perazzoli\/wp-content\/uploads\/2010\/07\/OldLady1.jpg\" alt=\"\" width=\"276\" height=\"184\" srcset=\"https:\/\/www.vidaclandestina.com.br\/wp-content\/uploads\/2010\/07\/OldLady1.jpg 400w, https:\/\/www.vidaclandestina.com.br\/wp-content\/uploads\/2010\/07\/OldLady1-300x200.jpg 300w\" sizes=\"(max-width: 276px) 100vw, 276px\" \/><\/a>Ter\u00e7a-feira de chuva em m\u00eas de inverno, t\u00edpico dia para todos os problemas respirat\u00f3rios atacarem de uma vez e ainda por cima ser presenteado com um resfriado. Sa\u00ed de casa em dire\u00e7\u00e3o a um banco para sacar algumas notas e resolver algumas burocracias financeiras.<\/p>\n<p>O olhar de f\u00faria do casal de seguran\u00e7as da ag\u00eancia revelava que haviam me reconhecido.<\/p>\n<p style=\"text-align: center;\"><!--more--><\/p>\n<p>H\u00e1 exatas 24 horas, o bloqueio manual da porta girat\u00f3ria que barra suspeitos atrav\u00e9s de um controle remoto travou por mais de quatro vezes consecutivas. Isso me enfureceu e os obriguei a chamar a gerente antes que eu parasse uma viatura e alegasse preconceito racial e social, j\u00e1 que pessoas melhor vestidas e de apar\u00eancia caucasiana n\u00e3o estavam sendo bloqueadas.<\/p>\n<p>Nessa ocasi\u00e3o n\u00e3o ousaram me barrar, mas a situa\u00e7\u00e3o era com a gerente. Essa quem deveria imediatamente me reconhecer e me dar um simples aparelho eletr\u00f4nico (para efetuar pagamentos on line sem ver a cara daqueles pobres infelizes que guardavam a entrada de uma empresa de cor azul e laranja), n\u00e3o o fez.<\/p>\n<p>Ap\u00f3s algumas dezenas de minutos sentado, desisti de esperar e resolvi encarar a chuva e fui em dire\u00e7\u00e3o a uma parada de \u00f4nibus \u2013 voc\u00ea paga um absurdo para ter o direito de dirigir um ve\u00edculo neste pa\u00eds e na hora que mais precisa, os malditos autom\u00f3veis sempre tendem a estar com problemas mec\u00e2nicos.<\/p>\n<p>Minha dire\u00e7\u00e3o eram as ruas Santa Efig\u00eania e 7 de abril, ambas no centro de S\u00e3o Paulo, ou seja, longe pra cacete da minha casa. A primeira \u00e9 um para\u00edso de pe\u00e7as para computadores e eletr\u00f4nicos ilegais, a segunda \u00e9 uma refer\u00eancia nacional de equipamentos fotogr\u00e1ficos profissionais anal\u00f3gicos e digitais.<\/p>\n<p>O \u00f4nibus demorou alguns minutos, Term. Correio, dizia o letreiro. Fiz o sinal e adentrei o ve\u00edculo.<\/p>\n<p>Haviam cerca de seis passageiros ap\u00f3s a catraca, mas aparentava ter bem mais. Eram aqueles carros mais novos que dizem serem mais espa\u00e7osos, quando na verdade possuem o mesmo tamanho s\u00f3 que menos bancos, isso para alocar mais passageiros em p\u00e9 e dar mais lucro para algum f\u00e9tido empres\u00e1rio de transportes coletivos.<\/p>\n<p>Na minha frente estava uma senhora com roupas de l\u00e3 horrivelmente coloridas dos p\u00e9s a cabe\u00e7a. Aparentava seus 70 anos e pedia confusamente para que eu passasse a catraca na sua frente. N\u00e3o entendi o gesto, ela havia usado o cart\u00e3o antes e n\u00e3o girou a roleta.<\/p>\n<p>Mas ela insistia, \u201cPasse por favor\u201d.<\/p>\n<p>Confuso saquei a carteira e ameacei pagar. \u201cGuarde a carteira\u201d, disse ela. Olhei desconfiado para o cobrador que mais parecia um bulldog velho. Este n\u00e3o moveu um m\u00fasculo e me olhava por cima dos ombros, na verdade nem os olhos ele mexeu, eu \u00e9 que estava em seu campo de vis\u00e3o.<\/p>\n<p>\u201cQual ser\u00e1 o objetivo desta mulher?\u201d. \u201cO que ser\u00e1 que ela quer em troca\u201d. \u201cEssa maldita serenidade em seu rosto vai me revelar uma velha perversa que passar\u00e1 o restante da viagem me falando de seus reumatismos e da sua aproxima\u00e7\u00e3o com o nosso senhor?\u201d. \u201cTalvez ela seja uma evang\u00e9lica que tentar\u00e1 me convencer em aceitar Jesus e fazer com que eu me arrependa de todos os meus pecados?\u201d.<\/p>\n<p>Minha conclus\u00e3o foi que ap\u00f3s eu passar pela roleta ela pediria que eu lhe desse o valor em dinheiro referente a uma passagem para ela comprar rem\u00e9dios para seus netos moribundos.<\/p>\n<p>Continuava olhando para o bulldog e este nada falou. Parecia at\u00e9 que ele conhecia aquela senhora e compactuava h\u00e1 tempos com a a\u00e7\u00e3o coativa aos passageiros que d\u00e3o dinheiro a esta velha mulher que usa roupas com combina\u00e7\u00f5es de cores grotescas.<\/p>\n<p>Ultrapassei a catraca e imediatamente fechei os olhos. \u201cDiabos\u201d, gritei sem emitir som. J\u00e1 era tarde demais para evitar aquela situa\u00e7\u00e3o e estava aguardando a abordagem, desejava apenas que fosse criativa e r\u00e1pida.<\/p>\n<p>Ela sorriu. \u201cSer\u00e1 que ela escutou o que pensei?\u201d, questionei introspectivamente.<\/p>\n<p>\u201cA senhora pagou a minha passagem\u201d, disse confuso e ainda desconfiado.<\/p>\n<p>\u201cSim, meu cart\u00e3o \u00e9 para acompanhantes e estou passando voc\u00ea\u201d, respondeu ela serenamente e com um sorriso no rosto.<\/p>\n<p>Estava diante de um ato de gentileza extrema, imediatamente fiquei envergonhado dos meus pensamentos. Esquecia sua cara sofrida e seu modo esdr\u00faxulo de combinar pe\u00e7as de roupa de cores distintas.<\/p>\n<p>A repulsa tornou-se admira\u00e7\u00e3o e a desconfian\u00e7a vergonha.<\/p>\n<p>\u201cObrigado\u201d, respondi.<\/p>\n<p>\u201cPor nada\u201d, conclui ela o r\u00e1pido di\u00e1logo tentando compactuar comigo um sorriso que custei a entender que era sarc\u00e1stico e se direcionava a um poss\u00edvel deboche para com o guardi\u00e3o da roleta.<\/p>\n<p>\u201cSer\u00e1 que ela tem consci\u00eancia e ri desta pequena subvers\u00e3o a uma brecha do sistema?\u201d, pensei comigo.<\/p>\n<p>J\u00e1 me esquecia dos transtornos no banco, da minha rinite al\u00e9rgica, da chuva e o conseq\u00fcente tr\u00e2nsito e tamb\u00e9m das d\u00edvidas de um autom\u00f3vel que n\u00e3o posso usar e me obriga a encarar cobradores com cara de bulldog.<\/p>\n<p>Confesso que tal gesto me encanta em uma sociedade como esta, onde a desconfian\u00e7a e os pensamentos mais preconceituosos e absurdos s\u00e3o o reflexo de todo um comportamento social urbano de uma cidade est\u00fapida que se priva da gentileza e da solidariedade para com o pr\u00f3ximo.<\/p>\n<p>Durante a viagem refleti sobre os seres que arriscam e gastam fortunas para terem alguns m\u00edseros minutos de prazer, paz e \u00eaxtase. Ser\u00e1 que eles entenderiam que essa busca pode ser conseguida atrav\u00e9s de um conjunto de coisas simples como atos de gentileza e solidariedade?<\/p>\n<p>Talvez esses seres n\u00e3o estejam buscando, mas sim fugindo da realidade, j\u00e1 que convivem diariamente com seus monstros internos que nada mais s\u00e3o do que reflexos de suas personalidades individualistas, rudes e terrivelmente gananciosas.<\/p>\n<p>Mas a tranq\u00fcilidade se foi e comecei a pensar na consci\u00eancia, no que viria em troca neste mundo do \u201cque se faz \u00e9 o que se paga\u201d e no \u201colho por olho e dente por dente\u201d.<\/p>\n<p>\u201cSer\u00e1 que essa senhora de vestes enfadonhas \u00e9 parte de um plano divino para que eu seja o porta voz de toda a humanidade sobre a import\u00e2ncia da gentileza humana?\u201d.<\/p>\n<p>Se for isso, h\u00e1 uma grande possibilidade desse \u00f4nibus bater em um caminh\u00e3o tanque lotado de combust\u00edvel e diante de uma pr\u00e9-explos\u00e3o que destrua tudo num raio de 50 metros eu tenha alguns segundos para decidir se corro e convivo eternamente com a culpa de n\u00e3o retribuir uma gentileza ou arrisco minha vida para salvar uma mulher de corpo velho envolto em roupas de l\u00e3 com cores medonhamente sortidas que h\u00e1 pouco pagou minha passagem sem querer nada em troca.<\/p>\n<p>Pouco tempo depois ela deu sinal para descer. Imediatamente procurei atordoado a porra do caminh\u00e3o tanque, mas felizmente n\u00e3o havia nenhum por perto. Ela desceu e respirei um pouco aliviado. Ainda olhei para ver se ela acenava, mas n\u00e3o olhou em minha dire\u00e7\u00e3o e seguiu o seu caminho&#8230;<\/p>\n<p>\u201cMas espere!? E se esse ato da velha gentil terrivelmente colorida for uma forma de me obrigar a passar a gentileza adiante?\u201d.<\/p>\n<p>\u201cIsso significa que essa porra ainda pode explodir!\u201d.<\/p>\n<p><em><strong>Imagem meramente ilustrativa<br \/>\nFonte da imagem:<\/strong> <a href=\"http:\/\/madisonthree.blogspot.com\/\" target=\"_blank\">http:\/\/madisonthree.blogspot.com\/<\/a><\/em><\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Por: \u00c1lvaro Perazzoli Ter\u00e7a-feira de chuva em m\u00eas de inverno, t\u00edpico dia para todos os problemas respirat\u00f3rios atacarem de uma vez e ainda por cima ser presenteado com um resfriado. 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