{"id":1461,"date":"2011-08-11T10:29:53","date_gmt":"2011-08-11T13:29:53","guid":{"rendered":"http:\/\/urbanriders.com.br\/alvaro.perazzoli\/?p=1461"},"modified":"2011-09-03T00:11:09","modified_gmt":"2011-09-03T03:11:09","slug":"pela-fumaca-e-a-desgraca-que-a-gente-tem-que-tossir","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.urbanriders.com.br\/alvaro.perazzoli\/?p=1461","title":{"rendered":"Pela fuma\u00e7a e a desgra\u00e7a, que a gente tem que tossir"},"content":{"rendered":"<p style=\"text-align: right;\"><em><strong>Texto e foto por<\/strong> <\/em><em><a href=\"..\/?page_id=20\" target=\"_blank\">\u00c1lvaro Perazzoli<\/a><\/em><\/p>\n<p><em> <\/em><\/p>\n<p><a href=\"http:\/\/urbanriders.com.br\/alvaro.perazzoli\/?p=1461\" target=\"_self\"><img decoding=\"async\" loading=\"lazy\" class=\"alignleft size-medium wp-image-1462\" title=\"IMG_8113\" src=\"http:\/\/urbanriders.com.br\/alvaro.perazzoli\/wp-content\/uploads\/2011\/08\/IMG_8113-300x199.jpg\" alt=\"Ghost Bike do Viaduto 31 de Mar\u00e7o em S\u00e3o Paulo, SP\" width=\"300\" height=\"199\" srcset=\"https:\/\/www.vidaclandestina.com.br\/wp-content\/uploads\/2011\/08\/IMG_8113-300x199.jpg 300w, https:\/\/www.vidaclandestina.com.br\/wp-content\/uploads\/2011\/08\/IMG_8113.jpg 800w\" sizes=\"(max-width: 300px) 100vw, 300px\" \/><\/a>Na quinta-feira 4 de agosto um Francisco deixou de ser pai e virou manchete, Jander pedalou por sua \u00faltima vez e o Martins nunca mais ir\u00e1 trabalhar. Francisco Jander Martins de empresa alguma era presidente ou diretor, mas assim como o empres\u00e1rio Ant\u00f4nio Bertolucci, foi morto por um \u00f4nibus enquanto pedalava.<\/p>\n<p>Talvez as emissoras de TV n\u00e3o concordem com uma grande repercuss\u00e3o por ser a vida de um ambulante migrante do nordeste, mas os cicloativistas que sa\u00edram \u00e0s ruas no dia seguinte ao acidente acreditam que a vida de qualquer um tem o mesmo valor. Este n\u00e3o ser\u00e1 mais um simples Chico.<\/p>\n<p style=\"text-align: center;\"><!--more--><\/p>\n<p>Fria, im\u00f3vel e p\u00e1lida, a <em>ghost bike<\/em> incomoda porque tem cheiro de morte. Em um m\u00f3rbido e silencioso cortejo que atravessou o cora\u00e7\u00e3o da cidade de S\u00e3o Paulo, dezenas de Alines, Andr\u00e9s e Reinaldos conduziram uma bicicleta pintada de branco para simbolizar o desejo de n\u00e3o terem o mesmo destino dos Franciscos, dos Bertoluccis e das M\u00e1rcias.<\/p>\n<p><strong>E atravessou a rua com seu passo t\u00edmido<\/strong><br \/>\n\u201cPor mais que os ciclistas e pedestres estejam errados, os motoristas devem levar em conta que ali h\u00e1 uma vida e que s\u00e3o os \u00fanicos que podem salv\u00e1-las\u201d, fala Andr\u00e9 Pasqualini, cicloativista do Instituto CicloBR.<\/p>\n<p>Pasqualini diz que \u00e9 necess\u00e1rio saber o que aconteceu para entender que tipo de solu\u00e7\u00e3o precisa ser adotada para que haja mais seguran\u00e7a aos ciclistas nesta via. \u201cViadutos e pontes s\u00e3o problemas da cidade inteira, pois s\u00e3o pontos conflituosos e sem alternativa\u201d, conclu\u00ed.<\/p>\n<p>O Instituto CicloBR tem uma comiss\u00e3o de advogados volunt\u00e1rios que auxiliar\u00e1 a fam\u00edlia sem custo algum.<\/p>\n<p><strong>Morreu na contram\u00e3o atrapalhando o tr\u00e1fego<\/strong><br \/>\nOs ativistas n\u00e3o se intimidaram com as autoridades presentes. A sinaliza\u00e7\u00e3o \u201cpirata\u201d pintada nas ruas foi feita sob os olhos dos oficiais da Companhia de Engenharia e Tr\u00e1fego, que nada fizeram.<\/p>\n<p>Um agente da CET, que se identificou apenas como \u00c1lvaro, estava dividido entre seu uniforme e a sua raz\u00e3o. No depoimento ele diz que todo mundo tem direito \u00e0 vida e ela merece ser cuidada. \u201cAs pessoas que est\u00e3o \u2018pagando\u2019 por esta manifesta\u00e7\u00e3o nada t\u00eam haver com isso. Tudo que \u00e9 feito fora da sinaliza\u00e7\u00e3o oficial \u00e9 proibido\u201d.<\/p>\n<p>Quando questionado sobre o porqu\u00ea um grupo de ciclistas deve sinalizar por conta pr\u00f3pria uma via, o agente responde que os ativistas est\u00e3o fazendo isso para tentar chegar em uma realidade que dificilmente conseguir\u00e3o.<\/p>\n<p>\u201cNosso tr\u00e2nsito \u00e9 ca\u00f3tico e nossas ruas n\u00e3o s\u00e3o preparadas para bicicletas. N\u00f3s n\u00e3o temos lugar nem para pedestres, que dir\u00e1 para ciclistas\u201d, diz \u00c1lvaro tentando ser amig\u00e1vel, mas demonstrando ser incr\u00e9dulo.<\/p>\n<p><strong>Amou daquela vez como se fosse a \u00faltima<\/strong><br \/>\nComo se fosse um aviso, Ta\u00eds Maria, enteada de Francisco, conta que ele visitou o casal de filhos que mora no interior no final de semana e no dia de sua morte fez um caminho que n\u00e3o costumava fazer.<\/p>\n<p>O terceiro filho estava na manifesta\u00e7\u00e3o. Os seus quatro anos conheceram a dor, seus olhos confusos n\u00e3o sabiam se choravam ou se gritavam. Com um sil\u00eancio tempestuoso, segurou um pincel e pintou de branco sereno o cinza infinito manchado pelo amor vermelho de seu pai.<\/p>\n<p>Com <em>seus olhos embotados de cimento e l\u00e1grima<\/em> ajudou os ativistas a pintarem na via a mensagem de alerta aos motoristas: \u201cDevagar Vidas\u201d.<\/p>\n<p>As faixas e o megafone diziam que naquele lugar morreu um ciclista, mas nenhum grito ou cartaz era t\u00e3o alto e profundo como aquela crian\u00e7a que olhava para o vazio e pensava em seu pequeno mundo: \u201caqui morreu meu pai\u201d.<\/p>\n<p><strong>E flutou no ar como se fosse um p\u00e1ssaro<\/strong><br \/>\nEle tinha carro mais preferia a bicicleta. Morreu em frente a um p\u00e1tio da Prefeitura de S\u00e3o Paulo, onde nenhum trabalhador disse ter visto o acidente.<\/p>\n<p>E a sexta <em>ghost bike<\/em> da cidade foi colocada em uma sexta-feira em homenagem a Francisco Jander Martins que morreu em frente \u00e0 Pra\u00e7a Francisco S\u00e1 Carneiro.<\/p>\n<p>Ao inv\u00e9s de uma cruz, a cidade das m\u00e1quinas fantasmas, que t\u00eam mais direitos que os humanos, ganhou uma bicicleta branca, pois o pecado desse Chico foi preferir a liberdade e sua penit\u00eancia foi perder a vida no Glic\u00e9rio.<\/p>\n<p>Ao inv\u00e9s de um sepultamento, o corpo branco e fr\u00e1gil suspenso em um dos viadutos mais movimentados da cidade representa a ascens\u00e3o de talvez uma <em>paz derradeira que enfim vai nos redimir<\/em>.<\/p>\n<p>Que <em>Deus lhe pague<\/em> por mais esta vida.<\/p>\n<address style=\"text-align: right;\"><strong><em>T\u00edtulo e Intert\u00edtulos:<\/em><\/strong><em> Fragmentos do poema e m\u00fasica \u201cConstru\u00e7\u00e3o\u201d, de Chico Buarque de Holanda<\/em><\/address>\n<p style=\"text-align: left;\">\n<p style=\"text-align: left;\"><strong>Ensaio de fotos completo: <\/strong><em> <\/em><a href=\"https:\/\/picasaweb.google.com\/UrbanRidersBrasil\/PelaFumacaEADesgracaQueAGenteTemQueTossir6GhostBikeDeSP\" target=\"_blank\">https:\/\/picasaweb.google.com\/UrbanRidersBrasil\/<\/a><\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Texto e foto por \u00c1lvaro Perazzoli Na quinta-feira 4 de agosto um Francisco deixou de ser pai e virou manchete, Jander pedalou por sua \u00faltima vez e o Martins nunca mais ir\u00e1 trabalhar. 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