{"id":1440,"date":"2011-06-29T00:06:47","date_gmt":"2011-06-29T03:06:47","guid":{"rendered":"http:\/\/urbanriders.com.br\/alvaro.perazzoli\/?p=1440"},"modified":"2011-06-29T01:49:55","modified_gmt":"2011-06-29T04:49:55","slug":"cap-i-as-mentiras-vermelhas-confabulam-com-as-lagrimas-do-medo","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.urbanriders.com.br\/alvaro.perazzoli\/?p=1440","title":{"rendered":"I &#8211; As mentiras vermelhas confabulam com as l\u00e1grimas do medo"},"content":{"rendered":"<p><em>Texto e foto por <\/em><em><a href=\"..\/?page_id=20\" target=\"_blank\">\u00c1lvaro Perazzoli<\/a><\/em><\/p>\n<p><strong>Cap\u00edtulo I<br \/>\nAs mentiras vermelhas confabulam com as l\u00e1grimas do medo<\/strong><a>[1]<\/a><br \/>\n<img decoding=\"async\" loading=\"lazy\" class=\"alignleft\" src=\"https:\/\/lh6.googleusercontent.com\/-IglFsS7Ma28\/TYzHWghPVTI\/AAAAAAAAC9g\/TuZIRTBEnr4\/s640\/10.jpg\" alt=\"\" width=\"276\" height=\"414\" \/>A brisa g\u00e9lida de cor azul sa\u00fada o homem magro de capote preto longo e chap\u00e9u cinzento que caminha assombrando-se nos passeios estreitos da madrugada vazia.<\/p>\n<p>Pele branca rugosa, m\u00e3os no bolso e cigarro apressado, foge de seu caminho em passos largos com sapatos que sentenciam o sil\u00eancio.<\/p>\n<p>Recorda-se da velha Inglaterra, culpa-se pelas crian\u00e7as que dormem embaladas na mortalha da lua que canta profecias blakianas.<\/p>\n<p>H\u00e1 uma garrafa com l\u00edquido dourado presa no bolso de sua camisa. Ela acompanha singularmente cada pulso de seu m\u00fasculo vital.<\/p>\n<p>Dos cigarros a volatilidade dos tragos, da bebida a vol\u00fapia do del\u00edrio.<\/p>\n<p>Gosta do circo. Apaixonara-se por uma bailarina que jazia tristeza em cada passo falso de sua sapatilha velha e imunda.<\/p>\n<p style=\"text-align: center;\"><!--more--><\/p>\n<p>Vermelho \u00e9 o seu semblante, vermelho \u00e9 o seu amor, vermelho \u00e9 sua culpa, vermelha s\u00e3o as manchas coaguladas na l\u00e2mina de seu punhal.<\/p>\n<p>Um quadr\u00fapede de pelo branco que guarda a sa\u00edda maldita cruza seus passos e sorri desgra\u00e7a. O latido gentil \u00e9 como uma den\u00fancia da presen\u00e7a mal vinda.<\/p>\n<p>H\u00e1 estrelas na boca do c\u00e9u. O chap\u00e9u largo o protege dos astros intrusos que solu\u00e7am o brilho da ang\u00fastia em cada esquina que d\u00e1 tr\u00e9gua ao olhar.<\/p>\n<p>H\u00e1 sexo em seu cheiro. N\u00e3o h\u00e1 mais dan\u00e7as em seu amanh\u00e3.<\/p>\n<p>Do circo, o horror. Dos aplausos, a degenera\u00e7\u00e3o. Figuras an\u00f4malas invadiram o palco. Nunca houve arte, cada bilhete de entrada tinha cheiro de sangue.<\/p>\n<p>Uma dan\u00e7arina decapitada \u00e9 s\u00f3 mais um elemento na composi\u00e7\u00e3o das aberra\u00e7\u00f5es que suicidam a poesia e folclorizam a mis\u00e9ria da morbidez humana.<\/p>\n<p>Em seus t\u00edmpanos ainda ecoam os gritos, mas o que o incomoda s\u00e3o os aplausos e a maldita exibi\u00e7\u00e3o doentia dos dentes.<\/p>\n<p>N\u00e3o h\u00e1 alegria em sua sombra, apenas restos p\u00e1lidos de maquiagem na sua lembran\u00e7a. Cansara-se de alegorizar auto-puni\u00e7\u00e3o em sua face. Caminha e obstina-se.<\/p>\n<p>N\u00e3o respirava mais dentro de um clown, seu personagem frio renega agora o nascer da maior estrela para desaquecer o recente banquete da vingan\u00e7a.<\/p>\n<p>A noite come\u00e7ara fugir em dire\u00e7\u00e3o oposta quando uma figura cadav\u00e9rica esgueirava-se a sua direita na penumbra de corti\u00e7os desarmoniosos.<\/p>\n<p>Pararam. F\u00f3sforos est\u00e3o em suas m\u00e3os, uma carteira de cigarros revela-se no bolso oposto ao que repousa o l\u00edquido entorpecente.<\/p>\n<p>Uma claridade tempestuosa rasga as trevas e por alguns miser\u00e1veis segundos o dourado vivo invade a face do homem. O chap\u00e9u \u00e9 como um sutil rebatedor da chama intrusa.<\/p>\n<p>A luz celestial revelara a esquerda uma velha placa ca\u00edda na soleira de um corti\u00e7o. \u201cClose your eyes, close you heart, close your soul, open your mind\u201d<a>[2]<\/a>.<\/p>\n<p>Retoma os passos, toa agora em um ritmo vagaroso e ruma em dire\u00e7\u00e3o a criatura que segue sempre a sua direita em dire\u00e7\u00e3o ao grande lago.<\/p>\n<p>N\u00e3o se aproximam, n\u00e3o se afastam, seguem morosamente como se confabulassem uma silenciosa conversa ouvida apenas pelos mortos.<\/p>\n<p>A sombria voz feminina em uma \u00f3pera long\u00ednqua sussurra blasf\u00eamias. A sonoridade ganha vaidade na medida que os seres se avizinham de uma velha casa de barcos.<\/p>\n<p>Um c\u00f4modo lamenta a solid\u00e3o e queixa-se do abandono. Tapumes horrivelmente coloridos sobrep\u00f5em-se em madeiras violentadas por cupins.<\/p>\n<p>A criatura a frente \u00e9 um velho barqueiro. Cego de um olho, reside no mundo da profana\u00e7\u00e3o e sobrevive da atravessia dos homens malditos na calada da noite.<\/p>\n<p>Abriu a porta do barrac\u00e3o sem olhar para tr\u00e1s. Desceu para desatar uma amarra que impedia a fuga de um velho bote a remo enegrecido pelo tempo.<\/p>\n<p>Quando todos os ratos ganharam a liberdade o c\u00f4modo bastardo ficou vazio. Roupas velhas disputavam espa\u00e7o com lou\u00e7as sujas, jornais antigos e um nauseante odor.<\/p>\n<p>O lugar ficava solto na parte mais esquecida da cidade. O homem decidiu n\u00e3o entrar, mas o retrato de uma jovem e bela mulher sobreposto em um altar o convidou.<\/p>\n<p>Uma toalha que um dia fora limpa era usada para abrigar a imagem de Beatrice. No caminho sagrado, o ch\u00e3o denunciava a delinq\u00fc\u00eancia do \u00f3pio.<\/p>\n<p>Pele p\u00e1lida, dedos longos e unhas delicadamente pintadas de negro. Rosto suave com olhos profundos e cansados eram recobertos por cabelos que insistiam em se cachearem.<\/p>\n<p>Seria poss\u00edvel haver tamanha beleza em uma flor cultivada com a \u00e1gua do s\u00e9timo lago das trevas?<\/p>\n<p>Se o sol era a obra prima mor dos deuses, as relvas capilares de Beatrice eram a contesta\u00e7\u00e3o de toda a cria\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>Se o azul celeste era a d\u00e1diva crist\u00e3, os l\u00e1bios rubros desta mulher eram a perdi\u00e7\u00e3o da vinciana.<\/p>\n<p>Sentimentalmente violentado e assombrado com o futuro, seguiu em dire\u00e7\u00e3o ao barco de apenas um remo que o aguardava.<\/p>\n<p>Em outros tempos precisaria de um casal de moedas. Poupara o barqueiro da coleta p\u00fatrida do n\u00edquel no s\u00f3t\u00e3o de sua l\u00edngua decomposta.<\/p>\n<p>O pagamento fora feito em m\u00e3os no que restava da sua semi-vida. E o homem de nome agourento escolheu a margem das trevas para ser sua eternidade.<\/p>\n<p>O lago \u00e9 a represa do sil\u00eancio e a condena\u00e7\u00e3o da luz. Neste horizonte que a lua reina o sol \u00e9 um mero s\u00fadito errante que caminha curvado e nunca ousa se levantar.<\/p>\n<p>Neste lado s\u00f3 o barqueiro retorna e n\u00e3o h\u00e1 mais raz\u00e3o. Os que se arrependem e tentam voltar alimentam as \u00e1guas que s\u00e3o ati\u00e7adas pelo medo, ang\u00fastia e incerteza.<\/p>\n<p>Antes de partir, o \u00faltimo olhar, a \u00faltima l\u00e1grima, o \u00faltimo pensar e o \u00faltimo resto de alegria em um sorriso sarc\u00e1stico que preenche toda a escurid\u00e3o enquanto dura.<\/p>\n<p>Acomoda-se na proa e senta-se de frente para o barqueiro. Olha para o semblante velho e abutrico do s\u00e1bio das tormentas que meio humano e meio imortal come\u00e7a a remar.<\/p>\n<p>Aproxima a garrafa ao seu rosto e a mira, gira-a em c\u00edrculos enquanto observa a velha terra se afastar e a criatura totalmente isenta de sentimentos remar mecanicamente.<\/p>\n<p>Sabe que em instantes desbravar\u00e1 o grande lago das l\u00e1grimas e cruzar\u00e1 por 13 luas a fronteira da percep\u00e7\u00e3o e o limiar da consci\u00eancia.<\/p>\n<p>Por tr\u00e1s dos corti\u00e7os e no topo de uma grande colina uma mancha amarela inconsistente aumenta sua forma. Tochas, enxadas e espingardas s\u00e3o carregadas por muitos homens.<\/p>\n<hr size=\"1\" \/><a>[1]<\/a> O texto <em>As mentiras vermelhas confabulam com as l\u00e1grimas do medo<\/em> \u00e9 um fragmento da mem\u00f3ria n\u00e3o vivida, \u00e9 um recorte bruto da mente sem um prop\u00f3sito propriamente dito.<\/p>\n<p>N\u00e3o h\u00e1 uma id\u00e9ia concreta de se criar um conto, um livro ou qualquer  outra coisa. S\u00e3o imagens que se mant\u00e9m presas e pedem para serem  libertas.<\/p>\n<p>O primeiro texto tem vida pr\u00f3pria, n\u00e3o \u00e9 conduzido pelo autor, na verdade a cria\u00e7\u00e3o conduz o criador.\u00a0 Como a contesta\u00e7\u00e3o de <a href=\"http:\/\/pt.wikipedia.org\/wiki\/William_Blake\" target=\"_blank\">William Blake<\/a> sobre a deturpa\u00e7\u00e3o humana com o conceito de Deus.<\/p>\n<p>N\u00e3o h\u00e1 a proposta de agradar o leitor, pelo  contr\u00e1rio, as palavras se maldizem para causar o desconforto e  trabalhar a morbidez humana. As pessoas n\u00e3o se sentem bem em ver um  corpo mutilado diante delas, mas a curiosidade e a necessidade de olhar  s\u00e3o maiores do que o pr\u00f3prio bem estar.<\/p>\n<p>N\u00e3o h\u00e1 rimas e nem uma m\u00e9trica pr\u00e9-definida, o \u00fanico cuidado \u00e9 que o  n\u00famero de linhas seja sempre dois (no corpo 12 e fonte Times), que  referem-se ao ser com seu eu (a consci\u00eancia) e um auto retrato de si  mesmo em 2D como se fosse uma fotografia (primeiro plano, o eu, e no  segundo plano o universo do eu).<\/p>\n<p>Em duas passagens o texto tem apenas uma linha, simboliza a perda de  um desses elementos (a consci\u00eancia) no quinto par\u00e1grafo e a raz\u00e3o no  d\u00e9cimo.<\/p>\n<p>N\u00e3o foram utilizadas nenhum tipo de subst\u00e2ncias alucin\u00f3genas neste primeiro momento, mas seu uso poder\u00e1 ser feito.<\/p>\n<p>Por fim, este trabalho n\u00e3o foi criado ou produzido, mas sim concebido  como se fosse um v\u00f4mito. Elemento que precisa sair e n\u00e3o h\u00e1 como  escolher a forma e quando, ele apenas sai.<\/p>\n<p><a><br \/>\n[2] <\/a>Feche seus olhos, feche seu cora\u00e7\u00e3o, feche sua alma, abra sua mente!<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Texto e foto por \u00c1lvaro Perazzoli Cap\u00edtulo I As mentiras vermelhas confabulam com as l\u00e1grimas do medo[1] A brisa g\u00e9lida de cor azul sa\u00fada o homem magro de capote preto longo e chap\u00e9u cinzento que caminha assombrando-se nos passeios estreitos da madrugada vazia. Pele branca rugosa, m\u00e3os no bolso e cigarro apressado, foge de seu [&hellip;]<\/p>\n","protected":false},"author":1,"featured_media":0,"comment_status":"open","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"footnotes":""},"categories":[56,45,14,37,70,19,68],"tags":[],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/www.urbanriders.com.br\/alvaro.perazzoli\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/posts\/1440"}],"collection":[{"href":"https:\/\/www.urbanriders.com.br\/alvaro.perazzoli\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/www.urbanriders.com.br\/alvaro.perazzoli\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/www.urbanriders.com.br\/alvaro.perazzoli\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/users\/1"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/www.urbanriders.com.br\/alvaro.perazzoli\/index.php?rest_route=%2Fwp%2Fv2%2Fcomments&post=1440"}],"version-history":[{"count":14,"href":"https:\/\/www.urbanriders.com.br\/alvaro.perazzoli\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/posts\/1440\/revisions"}],"predecessor-version":[{"id":1448,"href":"https:\/\/www.urbanriders.com.br\/alvaro.perazzoli\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/posts\/1440\/revisions\/1448"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/www.urbanriders.com.br\/alvaro.perazzoli\/index.php?rest_route=%2Fwp%2Fv2%2Fmedia&parent=1440"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/www.urbanriders.com.br\/alvaro.perazzoli\/index.php?rest_route=%2Fwp%2Fv2%2Fcategories&post=1440"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/www.urbanriders.com.br\/alvaro.perazzoli\/index.php?rest_route=%2Fwp%2Fv2%2Ftags&post=1440"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}